Recentemente, várias pessoas têm-me questionado sobre o que significa exatamente “escutar o corpo”. Como é que isso se faz? E porque é que, para algumas de nós, isso parece uma missão impossível?
Empatizo muito com quem me traz estas questões porque já foram minhas também. Por isso, senti que poderia ser de ajuda partilhar uma ou duas coisas sobre este tema, não só do meu lugar de terapeuta somática, mas também do meu lugar de mulher que empreendeu uma jornada de descoberta do que é isso de escutar o corpo.
Neste blog post, irei explorar porque é que escutar o corpo parece algo vago e, para muitas de nós, impossível. Em posts futuros, expandirei mais sobre o que significa exatamente “escutar o corpo”, e como podemos praticar essa escuta.
Deixa-me começar com uma história pessoal. Há uns bons anos atrás, iniciei terapia com uma terapeuta bastante experiente. Numa das nossas primeiras sessões, ela perguntou-me: “Sofia, onde sentes essa emoção no corpo?”. Eu ri, não só porque não lhe sabia responder, mas sobretudo por achar a pergunta meio woo-woo.
Dissociação
Hoje, reconheço que naquela altura, estava demasiado desconectada do meu próprio corpo para sequer considerar a questão que a terapeuta me colocara. De facto, para que possamos escutar o corpo, precisamos ter um corpo primeiro.
Não podemos escutar um corpo do qual estamos desconectadas, separadas, dissociadas. Esta é uma das razões pela qual muitas de nós não conseguem escutar o corpo.
Quando a minha terapeuta me fez aquela pergunta, eu sabia, cognitivamente, que tinha um corpo. Inclusive, enquanto fisioterapeuta, trabalhava com o corpo diariamente. No entanto, saber que se tem um corpo não é sinónimo de estar conectada com ele. Era como se, entre o meu corpo e o meu “eu”, existisse um fosso enorme que nos separava.
Naquela altura, usava inconscientemente o meu corpo como um instrumento, um instrumento que me permitia ir onde eu queria ir, fazer aquilo que eu queria fazer. O meu corpo vivia subjugado à minha mente e às suas ideias, objetivos e agenda. Não tinha como eu escutar um corpo que eu não habitava.
Precisei de mais uns dez anos (e de um valente empurrão da vida!), para me reconectar com o corpo, agora sob a orientação de uma terapeuta somática. Com a sua guiança, convidou-me repetidamente a observar o meu corpo com os olhos de dentro, apoiando-me a tomar consciência dele e das sensações que nele se iam apresentando.
Descer ao corpo, aterrar no corpo, foi sendo possível devido à profunda segurança da nossa relação terapeuta-cliente. Essa segurança convidou a minha curiosidade, curiosidade para explorar o que poderia estar a acontecer nesse espaço que se encontrava abaixo do meu pescoço.
Durante as nossas muitas sessões, eu “fui para o corpo” muitas, muitas vezes. Comecei a desenvolver uma conexão com ele, como numa relação entre duas pessoas que cresce em intimidade. A presença no corpo anda de mãos dados com a escuta do mesmo e, como gémeas siamesas, não vivem separadas.
Embodiment
O oposto de desconexão do corpo é embodiment. Sem este, sem habitarmos o corpo, não temos como escutá-lo. E, à medida que afinamos essa escuta, mais ocupamos o corpo. É um ciclo que se retroalimenta.
A forma como comecei a aterrar no corpo foi através da introcepção – a habilidade de notar o que está a acontecer, no corpo, e dentro dele.
Não foi fácil no início, devo dizer, especialmente porque não sabia muito bem o que procurar. Mas com a orientação da minha terapeuta, comecei a notar lugares de tensão e dor no corpo. E também lugares onde estava tudo bem, onde no lugar da tensão e dor, havia leveza e espaço.
A linguagem do corpo – as sensações
Esta é, também, uma das razões pelas quais, muitas de nós, não conseguem escutar o corpo. Não porque estamos desconectadas dele, mas porque não sabemos o que escutar. Por outras palavras: não conhecemos a linguagem do corpo, as sensações.
Resumindo, escutar o corpo requer:
- Que compreendamos a sua linguagem – a linguagem das sensações
- Que nos reconectemos com ele – embodiment
Ambos são processos, acontecendo no gerúndio, como quase tudo na vida.
Espero que este artigo te tenha sido de serviço, e se sentires o chamado para aprofundar a tua consciência somática, sabe aqui como te posso apoiar a fazê-lo.



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