Nos últimos três anos, mergulhei na terapia somática pelas mãos de diferentes terapeutas. Nesse mergulho, percebo-me a aterrar mais e mais no meu corpo, aproximando-me mais da minha verdade como nunca antes.
No passado, ouvi que o nosso corpo é a porta de entrada para a nossa Alma. Hoje, esta não é uma ideia que apenas compreendo intelectualmente: é algo que sei no corpo. Ao regressarmos ao corpo, regressamos a nós, recordando a essência de quem sempre fomos, antes de toda a programação e condicionamento.
À medida que a minha consciência somática se amplia, mais eu discirno aquilo que é, de facto meu – as minhas ideias, desejos e necessidades – daquilo que não vem de mim (aquilo que vem do mundo externo). Este discernimento tem sido particularmente revelador no meu negócio.
Há onze anos criei o meu próprio negócio. Acreditava que isso era sinónimo de ter escapado do sistema, libertando-me das suas amarras. Porém, a somática veio mostrar-me onde eu ainda não era livre. Tornou-me consciente da quantidade de coisas que eu fazia no meu negócio, não porque o escolhera verdadeiramente, mas porque não questionava o “status quo”.
A curiosidade que emerge de um sistema nervoso regulado despoletou um sem número de questões:
- O que estou a fazer no meu negócio que verdadeiramente desejo fazer?
- O que estou a fazer porque acredito que “tenho que”, ou porque “é assim que se faz”?
- Existe espaço, no meu negócio, para me escutar antes de tomar alguma decisão, ou mantenho-me constantemente ocupada para não sentir?
- O meu negócio permite a expressão dos meus dons?
- O meu negócio sustenta, ou consome, tempo e atenção ao que é prioritário na minha vida: a minha saúde, a minha família e a minha casa?
- Qual o lugar ocupa, afinal, o meu negócio nas prioridades da minha vida?
Estás perguntas foram-me trazendo clareza para decisões que eu precisava tomar, agora que eu não estava mais desconectada de mim mesma.
Partilho algumas delas como exemplo de como alguém que viveu muitos anos em dissociação pode, pouco a pouco, alinhar o seu negócio com o seu corpo e consigo mesma.
Gestão de mensagens
Quando eu trabalhava como responsável de uma equipa de fisioterapeutas, num hospital suíço, aprendi um princípio simples: os emails serviam exclusivamente para comunicar informação, não para discutir uma questão ou resolver um problema.
Ao longo dos últimos onze anos, esqueci-me disso. Dei por mim a responder a longas mensagens no WhatsApp e por email que, de forma clara, sinalizavam a necessidade de acompanhamento individual. Em vez de comunicar isso com clareza, tentava, através das minhas respostas, fazer com que a pessoa se sentisse vista, ouvida, compreendida.
Com todo o trabalho somático, fui-me tornando mais consciente do quanto esta minha forma de gerir mensagens me estava a esgotar, drenando energia que eu queria dedicar aos meus atendimentos individuais e ao aprofundamento das minhas competências profissionais.
Esta é, afinal, uma questão de limites, algo particularmente sensível para quem, no passado, esteve envolvida em relações abusivas. Agora, ao reconectar-me com o meu corpo, comecei a reconhecer os seus limites, os meus limites. É pelo corpo, e não pela mente, que percebemos o que é, ou não, danoso para nós.
Quando se tornou evidente que a forma como geria mensagens estava a causar danos, decidi regressar ao velho princípio que aprendera lá no hospital.
- Hoje, tenho blocos específicos na agenda dedicados à gestão de mensagens, sejam emails, Whatsapp e instagram. E não acontecem todos os dias.
- As minhas respostas são mais diretas e menos explicativas.
- “As mensagens servem para comunicarmos informação” e este limite está claro tanto no Whatsapp, quanto no rodapé dos meus emails. Ao fazê-lo, não estou apenas a cuidar de mim. Estou também a mostrar que é possível estar a serviço do outro sem nos abandonarmos, com respeito pelo nosso corpo e energia.
Criação de conteúdo
A criação de conteúdo ocupa um lugar central em qualquer negócio com presença online. Durante onze anos, trabalhei quase exclusivamente nesse espaço, e grande parte da minha energia diária foi dedicada a criar.
O que fui reconhecendo, através da somática, foi o quanto criava em piloto automático. Criava porque “tinha de criar”. Criava porque “é assim que se faz num negócio digital”. Criava conteúdos que, no fundo, não queria criar, apenas porque acreditava que “é isto que funciona”.
Ao mesmo tempo, a escrita – uma das razões que me levara a sair do meu trabalho hospitalar e a criar o meu próprio negócio – não tinha grande espaço na minha criação de conteúdo. “As pessoas não lêem conteúdo longo” – ouvia repetidamente, e foi assim que fui formatando a minha escrita para ser cada vez mais prática, direta e funcional.
Como resultado, nos últimos anos pratiquei aquilo que chamo de “escrita sem poesia”. Alguma vez leste Tony Robbins? O que ele escreve é interessante, mas falta poesia! Não no sentido literal mas carece de textura, cheiro, arte, beleza, magia. É tudo tão cognitivo, tão linear… E, sem me dar conta, aproximei-me desse registo.
O que fiz, também, ao longo de todos estes anos, é que me forcei a criar outros tipos de conteúdo que não envolviam a escrita, como fotografia e vídeo, apesar de nunca terem vindo da minha essência. Para mim, criar imagens ou certos tipos de vídeo é como surfar as ondas da Nazaré: completamente fora do meu ambiente natural.
Se eu quero que o meu negócio seja expressão da minha singularidade e, acima de tudo, se quero um negócio que respeita quem eu verdadeiramente sou e aquilo que tenho para dar, então escrever, e escrever conteúdo longo, precisa de ocupar mais espaço no meu dia a dia de empreendedora. Não por estratégia, mas por verdade.
Ofertas
“Diversifica as tuas ofertas, cria ofertas para os diferentes níveis da tua persona. É assim que deves fazer para ter um negócio de sucesso”.
Durante anos, absorvi definições de sucesso que não eram minhas. Corri atrás de números, visibilidade, crescimento. Até que, ao regressar ao corpo, relembrei o que sucesso significa para mim.
O meu negócio não começou por dinheiro. Se fosse isso que me movesse, nunca teria deixado um trabalho estável num país como a Suíça. O que hoje me preenche é sentir que consigo, efetivamente, ajudar quem me procura através das sessões de Terapia Somática.
O meu sistema nervoso pede menos, e mais simples. Será que ter menos ofertas, ou até mesmo uma só oferta, é financeiramente estratégico? Talvez ter menos ofertas, ou até apenas uma, não seja o mais “inteligente” do ponto de vista cognitivo. Mas aquilo que é considerado inteligente pela mente, nem sempre é o mais inteligente para o sistema nervoso. Ou para a Alma.
Num futuro próximo, irei descontinuar a maioria das minhas ofertas e focar-me apenas naquilo que verdadeiramente ajuda as minhas clientes, e que, ao mesmo tempo, me sustenta por dentro. Menos é, de facto, mais.
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Estas são apenas algumas das decisões que tenho vindo a implementar para que o meu negócio deixe de ser mais um espaço onde me encolho para caber. Um negócio que, finalmente, respeita o meu corpo e a verdade de quem sou.
Permaneço curiosa quanto ao caminho que esta reconexão com a minha “soma” continuará a abrir, na minha vida e no meu trabalho.



2 respostas
Querida Sofia as tuas palavras ressoam na minha alma… Tenha eu coragem e energia para seguir o meu propósito de um lugar verdadeiro como tu segues o teu… Um grande bem hajas
Este mundo já é um lugar melhor só por tu seguires o teu caminho em pura verdade ✨✨
Querida Laura, obrigada pelo teu retorno a este blogpost e pelas tuas palavras generosas. Sigamos descobrindo como é viver e empreender em verdade, uma exploração que continuo a fazer. Um beijinho com amor.