As instituições de saúde têm um impacto profundo no bem-estar emocional dos utentes, mas nem sempre esse impacto é positivo. A falta de cuidados trauma-informados nesses contextos pode fazer com que as pessoas saiam desses espaços mais fragilizadas, com experiências de desamparo e desconfiança que impactam negativamente a sua saúde.
Quando assim é, quando espaços de suposto apoio a pessoas em situação de vulnerabilidade, causam mais dano, então deixaram de ser parte da solução e passaram a ser parte do problema. E é precisamente por isso que é urgente a implementação de Cuidados Trauma-Informados, nomeadamente na saúde e áreas vizinhas.
O que são Cuidados Trauma-Informados?
Cuidados Trauma-Informados (CTI) assentam na compreensão de que a presença de trauma na vida de uma pessoa pode impactar profundamente a sua saúde física, emocional, mental e relacional.
Esta abordagem reconhece que a experiência de trauma afeta a forma como uma pessoa perceciona o mundo à sua volta, como se expressa e como se relaciona com os outros. Em muitos casos, o trauma compromete a capacidade da pessoa se sentir segura e de desenvolver relações de confiança, nomeadamente com profissionais de saúde e áreas adjacentes.
Sabendo que, na presença de trauma, os cuidados prestados a um indivíduo têm o potencial de ser retraumatizantes, causando mais dano do que benefício, os Cuidados Trauma-Informados procuram reduzir este risco, criando espaços que previnem a retraumatização e que promovem a reparação do trauma.
O que distingue cuidados trauma-informados dos cuidados “comuns”?
Perceber as nuances que diferenciam cuidados “comuns” de Cuidados Trauma-Informados, ajuda a tornar mais concreta a mudança a que devemos aspirar. Seguem-se algumas das maiores diferenças.
1. Do Julgamento à Empatia
- Cuidados Comuns: A abordagem tradicional tende a perguntar: “O que há de errado com esta pessoa?”. Esta perspetiva interpreta os sintomas ou comportamentos como problemas a serem corrigidos ou eliminados, desconsiderando o contexto mais amplo ou possíveis causas subjacentes. É uma abordagem que tende a rotular e colocar as pessoas em caixas, o que impossibilita que as vejamos verdadeiramente.
- Cuidados Trauma-Informados: Em vez de procurar “o que está errado”, esta abordagem pergunta: “De que é que esta pessoa precisa?”. Em vez de tratar os sintomas e comportamentos como “problemas”, o objetivo é compreendê-los como respostas adaptativas a experiências difíceis ou traumáticas. E, desta forma, reconhece que os sintomas e comportamentos fazem todo sentido, no contexto da história daquela pessoa. Aqui, a pessoa é realmente vista e escutada, o que convida à segurança, empatia e conexão.
2. Da Autoridade à Parceria
- Cuidados Comuns: Muitas abordagens convencionais colocam o profissional de saúde, ou de áreas próximas, como autoridade máxima. A pessoa atendida é muitas vezes vista como passiva, e com pouca ou nenhuma voz no processo de decisão sobre o seu cuidado. Isto impede a criação de um vínculo seguro e de confiança com o prestador de cuidados, assim como desempodera a pessoa atendida. Desta forma, perpetua-se o desempoderamento consequente do trauma, causando aquilo que se chama de retraumatização.
- Cuidados Trauma-Informados: A relação aqui é de parceria. O profissional vê a pessoa atendida como alguém com experiência e conhecimento valioso sobre si mesma e as suas necessidades. O objetivo é empoderar a pessoa, reconhecendo os seus direitos humanos e devolvendo-lhe a voz nas decisões sobre o seu próprio cuidado. Assim, promovemos a sua autonomia e empoderamento.
3. De Espaços Ameaçadores a Espaços Seguros
Cuidados Comuns: Quando os profissionais não reconhecem como certos ambientes, abordagens ou práticas comuns impactam o sistema nervoso da pessoa atendida, o risco de lhes causar dano e até retraumatização, é maior. Alguns exemplos disso são: falta de privacidade na recepção de um centro de saúde, profissionais que tocam no corpo da pessoa sem consentimento prévio ou um profissional de saúde que interrompe o relato da pessoa atendida para preencher formulários, sem validar ou reconhecer o que está a ser partilhado. A falta de sensibilização a este tema aumenta a vulnerabilidade da pessoa atendida.
Cuidados Trauma-Informados: A principal prioridade é criar ambientes seguros e acolhedores, que minimizem o risco de retraumatização. Alguns exemplos disso são: numa recepção, não tornar públicos dados privados da pessoa como número de telefone, morada ou diagnóstico; antes de qualquer toque, exame ou procedimento, informar a pessoa sobre o que vai acontecer e pedir explicitamente o seu consentimento; o profissional ajusta o seu ritmo ao da pessoa atendida, permitindo pausas e reconhecendo a importância do que está a ser partilhado. Além disso, os profissionais são treinados para identificar sinais de desconforto e insegurança, ajustando as suas abordagens de forma a evitar a retraumatização.
4. Da Invalidação ao Acolhimento
- Cuidados Comuns: Nos cuidados tradicionais, o que a pessoa comunica sobre a sua experiência nem sempre é verdadeiramente escutado ou validado. Muitas vezes, os relatos são desvalorizados, minimizados ou até mesmo descartados como exagero, o que pode levar a sentimentos de isolamento, desamparo e de que não é possível confiar naqueles espaços e profissionais.
- Cuidados Trauma-Informados: Aqui, a voz da pessoa é honrada como central no processo de cuidado. O profissional não apenas escuta, mas valida a experiência da pessoa como legítima e importante. O acolhimento implica reconhecer que cada indivíduo tem a sua própria experiência interna e que essa experiência é válida e merece ser escutada sem julgamentos.
Conclusão
O trauma não é uma experiência rara ou limitada a um pequeno número de pessoas. Pelo contrário, faz parte da experiência humana de formas muito mais abrangentes do que tradicionalmente se reconhece.
O trauma pode resultar de eventos extremos, como abusos, guerras ou desastres naturais, mas também de experiências quotidianas que desafiam o nosso senso segurança e a capacidade de regulação do sistema nervoso, como negligência emocional na infância, stress crónico, perdas significativas, discriminação ou até procedimentos médicos invasivos.
Estudos como o Adverse Childhood Experiences (ACE) Study mostram que uma grande percentagem da população viveu experiências adversas que impactam a saúde física e mental ao longo da vida. Além disso, o mundo atual, com crises globais, desigualdades e ritmos de vida acelerados, aumenta mais ainda a prevalência de experiências potencialmente traumáticas.
Torna-se evidente que a saúde não pode ser plenamente compreendida ou promovida sem considerar o impacto do trauma na vida das pessoas. Ainda assim, muitos modelos de cuidado continuam a ignorar estas conexões, abordando os sintomas de forma fragmentada e desconsiderando as causas subjacentes.
Sem uma abordagem trauma-informada, os cuidados de saúde podem inadvertidamente ser fontes de dano e retraumatização, levando a uma menor confiança nos profissionais e nos espaços de cuidado, e consequente abandono dos serviços e agravamento das questões de saúde física e/ou mental.
A transição de cuidados convencionais para cuidados trauma-informados, não é apenas uma mudança de abordagem, mas uma transformação fundamental na forma como nos vemos e nos relacionamos uns com os outros.
Mais do que uma prática isolada, trata-se de umas novas “lentes” que permeiam toda a cultura de uma organização ou de uma equipa, uma cultura que minimize a possibilidade de reativar traumas passados, enquanto promove saúde, bem-estar e resiliência.A urgência desta transição não pode ser ignorada: para cuidar verdadeiramente, é preciso compreender o impacto do trauma e garantir que os espaços de apoio sejam, de facto, seguros e reparadores.
Referências bibliográficas
- Felitti, V. J., Anda, R. F., Nordenberg, D., Williamson, D. F., Spitz, A. M., Edwards, V., Koss, M. P., & Marks, J. S. (1998). Relationship of childhood abuse and household dysfunction to many of the leading causes of death in adults: The Adverse Childhood Experiences (ACE) Study. American Journal of Preventive Medicine, 14(4), 245-258. https://doi.org/10.1016/S0749-3797(98)00017-8



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