A maioria das mulheres que me procura acredita que o trauma não faz parte da sua história. “Eu tive uma infância feliz”, dizem-me muitas vezes no início de um processo terapêutico. Mas à medida que caminhamos juntas, chega o reconhecimento: aquele mal-estar difuso, aquela ansiedade sem explicação aparente, aquelas tensões relacionais… não nasceram do nada. Têm raízes no trauma.
Eu também passei por este processo. Em 2008 ou 2009, quando comecei a fazer terapia, respondi exatamente a mesma coisa: “Eu tive uma infância feliz”. Só em 2023, quinze anos depois, é que reconheci que o trauma fazia parte da minha história.
Se o tivesse percebido mais cedo, talvez tivesse poupado anos à deriva no mundo do desenvolvimento pessoal, em processos, terapias, mentorias, cursos e programas, sempre à procura de alívio para algo que eu não sabia nomear. Se soubesse que o trauma estava na origem dos meus maiores desafios, pessoais e profissionais, talvez tivesse procurado a ajuda certa mais cedo.
“Já devia ter começado esta terapia mais cedo” ou “Como é que não se ouve falar mais desta abordagem em Portugal?”, são partilhas que escuto muitas vezes nas minhas clientes. Mulheres que, tal como eu, encontram finalmente na Experiência Somática um sentido para aquele malaise persistente, aquela sensação teimosa de que algo não encaixa, mesmo quando “tudo está bem”.
Estas experiências – as delas e as minhas – revelam a importância de desmistificar, de uma vez por todas, o conceito de trauma.
Trauma não é o evento.
Tendemos a associar trauma a acontecimentos extremos – um abuso sexual, a morte de uma criança, uma guerra. E aqui reside a primeira grande distorção: o trauma não está no evento em si, mas no que se desencadeia dentro de nós como resposta ao que aconteceu.
Duas pessoas podem passar exatamente pela mesma situação e terem vivências internas completamente diferentes. Uma pode seguir a vida relativamente bem, enquanto a outra pode ficar profundamente desorganizada.
Não existem “traumas grandes” nem “traumas pequenos”.
Se o trauma não está no evento em si, mas na forma como nós vivemos a experiência dentro de nós, então a distinção entre trauma “grande” e “pequeno” deixa de fazer sentido.
Uma infância marcada por negligência emocional persistente pode deixar marcas tão, ou mais profundas, quanto uma situação de violência física que aconteceu uma única vez. Isto porque, mais uma vez, o que define trauma não é o evento mas as consequências que esse evento tem na nossa psique e no nosso corpo.
Trauma não é apenas o que aconteceu – é também o que faltou acontecer.
Outra confusão muito comum é a ideia de que o trauma vive naquilo que nos aconteceu. Porém, o trauma nasce também daquilo que não chegou a acontecer.
E é aqui que encontramos tantas das nossas histórias. O trauma está, muitas vezes, na ausência de escuta, de validação, de segurança, de presença, de disponibilidade. Está, muitas vezes, na falta de colo, de espaço para sentir, de alguém que testemunhe sem diminuir, julgar ou invalidar a nossa experiência.
Peter Levine, o pai da Experiência Somática (em inglês, Somatic Experiencing®), diz que trauma não é o que nos acontece, mas o que fica guardado dentro de nós na ausência de uma testemunha empática. Por outras palavras: o que fere não é apenas a intensidade da experiência, mas o facto de ficarmos sozinhos com ela, numa vivência de profundo desamparo.
Conclusão
Quanto mais estudo sobre trauma, mais creio que trauma faz parte da história de todos nós, sem excepção. Peter Levine diz mesmo que o trauma é um facto da vida, embora não tenha que ser uma sentença.
Acredito profundamente que reconhecer que o trauma faz parte da nossa própria história nos dá a oportunidade de atravessar um portal precioso de cura profunda, uma viagem através da qual nos encontramos connosco mesmos de uma forma mais profunda, autêntica e amorosa.
Ao percorrermos a jornada de cura que o trauma nos convida a caminhar, aprendemos não apenas a acolher a sua dor, mas também a reconhecer os dons mais profundos que ele tem para nos oferecer.



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