O primeiro artigo deste blog tinha que ser sobre a jornada de self-mastery e sobre o que este conceito realmente significa.
O trabalho que tenho desenvolvido desde que comecei a trabalhar como Coach, há quase dez anos atrás, foi sempre sobre self-mastery, mesmo que eu não tivesse consciência disso.
Mas este ano (2024), ao mergulhar profundamente no tema do trauma, o conceito de self-mastery veio até mim e tornou-se claro que era exatamente isso de que o meu trabalho tratava.
Neste artigo, quero partilhar contigo a minha visão pessoal deste conceito, até para que, em futuros artigos, sempre que ele surgir, saibas exatamente a que é que eu me refiro.
1. O que significa self-mastery?
O termo self-mastery é um termo importado da língua inglesa que, quando traduzido diretamente para português significa “’domínio do eu‘”. Porém, “domínio do eu” remete, de alguma forma, para uma noção de exercer controlo sobre si mesmo, ao passo que self-mastery remete mais para uma noção de se conhecer amplamente a si mesmo, ao ponto de “dominar” a complexidade da sua própria pessoa.
Da mesma forma que alguém que tem um ‘master’ (mestrado) é considerado mestre no respetivo assunto, alguém que tem self-mastery é alguém que é mestre de si mesmo. É alguém que se conhece e compreende profundamente.
Termos como “autoliderança” ou “controlo do eu” são termos utilizados, na língua portuguesa, com um significado semelhante ao de self-mastery mas que, no meu entender, não comunicam toca a sua amplitude.
Por estas razões, integrei o termo self-mastery no meu trabalho e utilizá-lo-ei, daqui para a frente, no decorrer deste, e de outros artigos neste blog.
2. Os 6 degraus da jornada de self-mastery

Se estás a ler este artigo e te interessas por desenvolvimento pessoal, é garantido que estás na tua própria jornada de self-mastery, tenhas ou não consciência disso.
1º degrau – Autoconsciência
Geralmente, entramos neste mundo do autodesenvolvimento, a partir de um senso de “alguma coisa tem que mudar em mim”. Não sabemos bem o que é, mas sentimos que algo que não está bem e que precisamos fazer alguma coisa. Este é o primeiro degrau da jornada de self-mastery e diz respeito à autoconsciência.
2ª degrau – Auto-exploração
Começamos então a explorar os nossos pensamentos, as nossas crenças limitantes e potenciadoras e as nossas emoções. Estamos no segundo degrau da jornada de self-mastery – auto-exploração.
3º degrau – Autocompreensão
A determinado ponto, sentimos que não chega reconhecer os nossos pensamentos e emoções. Queremos agora compreender o que nos faz agir como agimos, porque somos como somos – auto-compreensão, o terceiro degrau da jornada de self-mastery.
4º degrau – Auto-amor
Quando começamos a compreender porque somos como somos e a influência que a nossa infância, vinculação com as figuras parentais e traumas têm na pessoa que somos hoje, surge uma necessidade imperativa de nos acolhermos, aceitarmos e validarmos, amorosa e compassivamente – auto-amor ou amor próprio, o quarto degrau da jornada de self-mastery.
5º degrau – Auto-transformação
E nesse caminho, começamos a perceber que existe uma diferença entre quem acreditamos ser (a identidade que construímos de nós mesmos) e quem verdadeiramente somos. Iniciamos, assim, uma jornada de transcender quem acreditámos ser, incorporar o nosso verdadeiro ‘eu’ e reclamar o nosso verdadeiro potencial – auto-transformação, o quinto degrau da jornada de self-mastery.
6º degrau – Domínio do ego
O último e sexto degrau desta jornada, é dominar o ego, reconhecendo que ele não é quem verdadeiramente somos, mas somente uma “interface” para navegarmos a nossa vida terrena. É despertar da ilusão da Separação. É relembrar e reconectar com a Fonte, que está em nós.
A jornada de self-mastery não é uma jornada linear, de etapas bem definidas. Por vezes, podemos ter um pé num degrau acima e outro num degrau abaixo, o que reflete bem a complexidade da nossa natureza humana e a não linearidade do nosso processo evolutivo.
3. Requisitos para evoluir no nosso self-mastery?
Evoluir no nosso self-mastery requer que passemos tempo connosco mesmos. Não a fazer coisas mas sim “sentados” connosco, fazendo companhia às múltiplas partes que nos compõem e às suas necessidades e desejos próprios. Para que possamos ouvi-los, precisamos sentar-nos em silêncio, algo que fazemos cada vez menos.
Requer que nos sentemos com o desconforto que certos pensamentos, emoções, pessoas e situaçãos acordam no nosso corpo. Por outras palavras, requer que ampliemos a nossa resiliência.
Self-mastery requer desapego do nosso mundo exterior, sejam coisas, emoções, ideias, lugares, pessoas, funções, desejos, situações. Requer que nos tornemos soberanos, para que a nossa felicidade não assente em nada, nem ninguém, que não em nós mesmos. Se as coisas acontecerem como desejávamos, óptimo; mas se não, continuamos felizes e inteiros.
Requer transcender, todos os dias, pensamentos, emoções e comportamentos que nos impedem sequer de fazer contacto com o potencial que temos em nós. Exige quebrar as correntes que nos mantém cativos do passado, prisioneiros de uma imagem com a qual nos identificámos, confinados a capacidades muito aquém do poder que realmente possuímos.
Requer ser uma inspiração, em primeiro lugar, para nós mesmos. Demanda-nos transcender as nossas limitações de ontem e a pessoa que acreditámos ser, para incorporar o Divino, a Graça, a Honra, a Elegância, o Poder Criativo e Ilimitado que temos dentro de nós. É deixar a nossa luz interior brilhar, é incorporar, é viver o potencial total com que fomos presenteados à nascença.
4. Conclusão
Não há nada mais inspirador para mim do que observar alguém que é completamente feliz consigo mesmo, que se ama, que ama passar tempo na sua própria companhia, que sabe exatamente como estar lá para si. Alguém que é preenchido de si mesmo (em inglês, “full of oneself”, que significa, curiosamente, arrogante, presunçoso, egoísta).
Pessoalmente, não conheço ninguém que se “domina” completamente a si mesmo mas conheço pessoas que alcançaram um nível importante de self-mastery. Isto diz-me que mais do que algo que devemos buscar alcançar, self-mastery é sobretudo algo que devemos buscar trabalhar diariamente. Não é um fim em si, não é um destino aonde chegar; é, sobretudo, uma jornada a caminhar.
O caminho será certamente diferente para cada um de nós mas estaremos todos, degrau a degrau, regressando a Casa.



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