Cuidados Trauma-Informados na Saúde

Cuidados Trauma-Informados

Esta abordagem reconhece que a experiência de trauma afeta a forma como uma pessoa perceciona o mundo à sua volta, como se expressa e como se relaciona com os outros. Em muitos casos, o trauma compromete a capacidade da pessoa se sentir segura e de desenvolver relações de confiança, nomeadamente com profissionais de saúde e áreas adjacentes.

Perceber as nuances que diferenciam cuidados “comuns” de Cuidados Trauma-Informados, ajuda a tornar mais concreta a mudança a que devemos aspirar. Seguem-se algumas das maiores diferenças.

1. Do Julgamento à Empatia

  • Cuidados Comuns: A abordagem tradicional tende a perguntar: “O que há de errado com esta pessoa?”. Esta perspetiva interpreta os sintomas ou comportamentos como problemas a serem corrigidos ou eliminados, desconsiderando o contexto mais amplo ou possíveis causas subjacentes. É uma abordagem que tende a rotular e colocar as pessoas em caixas, o que impossibilita que as vejamos verdadeiramente.
  • Cuidados Trauma-Informados: Em vez de procurar “o que está errado”, esta abordagem pergunta: “De que é que esta pessoa precisa?”.  Em vez de tratar os sintomas e comportamentos como “problemas”, o objetivo é compreendê-los como respostas adaptativas a experiências difíceis ou traumáticas. E, desta forma, reconhece que os sintomas e comportamentos fazem todo sentido, no contexto da história daquela pessoa. Aqui, a pessoa é realmente vista e escutada, o que convida à segurança, empatia e conexão.

2. Da Autoridade à Parceria

  • Cuidados Comuns: Muitas abordagens convencionais colocam o profissional de saúde, ou de áreas próximas, como autoridade máxima. A pessoa atendida é muitas vezes vista como passiva, e com pouca ou nenhuma voz no processo de decisão sobre o seu cuidado. Isto impede a criação de um vínculo seguro e de confiança com o prestador de cuidados, assim como desempodera a pessoa atendida. Desta forma, perpetua-se o desempoderamento consequente do trauma, causando aquilo que se chama de retraumatização. 
  • Cuidados Trauma-Informados: A relação aqui é de parceria. O profissional vê a pessoa atendida como alguém com experiência e conhecimento valioso sobre si mesma e as suas necessidades. O objetivo é empoderar a pessoa, reconhecendo os seus direitos humanos e devolvendo-lhe a voz nas decisões sobre o seu próprio cuidado. Assim, promovemos a sua autonomia e empoderamento.

3. De Espaços Ameaçadores a Espaços Seguros

Cuidados Comuns: Quando os profissionais não reconhecem como certos ambientes, abordagens ou práticas comuns impactam o sistema nervoso da pessoa atendida, o risco de lhes causar dano e até retraumatização, é maior. Alguns exemplos disso são: falta de privacidade na recepção de um centro de saúde, profissionais que tocam no corpo da pessoa sem consentimento prévio ou um profissional de saúde que interrompe o relato da pessoa atendida para preencher formulários, sem validar ou reconhecer o que está a ser partilhado. A falta de sensibilização a este tema aumenta a vulnerabilidade da pessoa atendida.

Cuidados Trauma-Informados: A principal prioridade é criar ambientes seguros e acolhedores, que minimizem o risco de retraumatização. Alguns exemplos disso são: numa recepção, não tornar públicos dados privados da pessoa como número de telefone, morada ou diagnóstico; antes de qualquer toque, exame ou procedimento, informar a pessoa sobre o que vai acontecer e pedir explicitamente o seu consentimento; o profissional ajusta o seu ritmo ao da pessoa atendida, permitindo pausas e reconhecendo a importância do que está a ser partilhado. Além disso, os profissionais são treinados para identificar sinais de desconforto e insegurança, ajustando as suas abordagens de forma a evitar a retraumatização.

4. Da Invalidação ao Acolhimento

  • Cuidados Comuns: Nos cuidados tradicionais, o que a pessoa comunica sobre a sua experiência nem sempre é verdadeiramente escutado ou validado. Muitas vezes, os relatos são desvalorizados, minimizados ou até mesmo descartados como exagero, o que pode levar a sentimentos de isolamento, desamparo e de que não é possível confiar naqueles espaços e profissionais.
  • Cuidados Trauma-Informados: Aqui, a voz da pessoa é honrada como central no processo de cuidado. O profissional não apenas escuta, mas valida a experiência da pessoa como legítima e importante. O acolhimento implica reconhecer que cada indivíduo tem a sua própria experiência interna e que essa experiência é válida e merece ser escutada sem julgamentos.

Conclusão

O trauma pode resultar de eventos extremos, como abusos, guerras ou desastres naturais, mas também de experiências quotidianas que desafiam o nosso senso segurança e a capacidade de regulação do sistema nervoso, como negligência emocional na infância, stress crónico, perdas significativas, discriminação ou até procedimentos médicos invasivos.

Estudos como o Adverse Childhood Experiences (ACE) Study mostram que uma grande percentagem da população viveu experiências adversas que impactam a saúde física e mental ao longo da vida. Além disso, o mundo atual, com crises globais, desigualdades e ritmos de vida acelerados, aumenta mais ainda a prevalência de experiências potencialmente traumáticas.

Torna-se evidente que a saúde não pode ser plenamente compreendida ou promovida sem considerar o impacto do trauma na vida das pessoas. Ainda assim, muitos modelos de cuidado continuam a ignorar estas conexões, abordando os sintomas de forma fragmentada e desconsiderando as causas subjacentes.

Sem uma abordagem trauma-informada, os cuidados de saúde podem inadvertidamente ser fontes de dano e retraumatização, levando a uma menor confiança nos profissionais e nos espaços de cuidado, e consequente abandono dos serviços e agravamento das questões de saúde física e/ou mental. 

A transição de cuidados convencionais para cuidados trauma-informados, não é apenas uma mudança de abordagem, mas uma transformação fundamental na forma como nos vemos e nos relacionamos uns com os outros.

Referências bibliográficas

  • Felitti, V. J., Anda, R. F., Nordenberg, D., Williamson, D. F., Spitz, A. M., Edwards, V., Koss, M. P., & Marks, J. S. (1998). Relationship of childhood abuse and household dysfunction to many of the leading causes of death in adults: The Adverse Childhood Experiences (ACE) Study. American Journal of Preventive Medicine, 14(4), 245-258. https://doi.org/10.1016/S0749-3797(98)00017-8
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